Carlos Costa: "Tive de fazer-me de maluco para ter consultas"
Em entrevista à SEFIE, Carlos Costa fala, sem filtros, sobre o processo de transição, a relação com a família, o acesso aos cuidados de saúde e a decisão de expor publicamente um caminho que diz ser marcado por sofrimento, dúvidas e riscos reais.
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Cátia Soares
- 24 abr, 17:23
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Carlos Costa garante que o processo de transição de género está a ser conduzido de forma independente e sem interferências externas.
"Eu não peço permissão. Faço só. Não falo sobre o assunto. Quando falo sobre o assunto, já está a acontecer. Não vou deixar que a ideologia de outra pessoa venha interpelar e confundir a minha", afirma, em entrevista exclusiva à SELFIE.
"Se estou decidido, ao fim de tantos anos, não vou dar margem para opiniões, porque isso só me vai confundir", sublinha o cantor, de 34 anos.
Nesse sentido, sublinha que escolhe cuidadosamente quem ouve: "Falo com quem tenho de falar, aconselho-me com os médicos de forma inteligente, faço as perguntas que tenho de fazer e direciono os meus objetivos ouvindo opiniões de especialistas e não de treinadores de bancada. Não vou viver alicerçado na opinião dos outros. Já chega!"
A relação com a família é vivida de forma particular. "Não me interessa se a minha mãe é conivente ou não. Ela é uma pessoa que faz parte da minha história." Ainda assim, revela uma dimensão emocional forte: "Eu, Carlos, sempre imaginei aquela fénix a ser apoiada pelos meus pais. Se eles apoiam ou não? No meu subconsciente, eles apoiam. E é nisso que tenho de acreditar."
Sobre o momento em que a família tomou conhecimento, acrescenta: "Está a saber do processo praticamente ao mesmo tempo que o público, mas eu fui dando umas luzes. A minha cunhada sabe de tudo - é uma das minhas melhores amigas - e conhece a história de fio a pavio."
Carlos Costa admite também que a exposição mediática pode ter impacto na sua carreira, ainda que não conte com isso em Portugal. "Poderá ser um bom assunto para, de certa forma, vir a trazer-me à ribalta. Seria espetacular se, com isso, me dessem um micro e dissessem: 'Agora, canta!' Isto era perfeito! Mas não vai acontecer. Muito menos em Portugal."
Ainda assim, a decisão de tornar público o processo tem um objetivo maior. "Vou expor isto para que as pessoas percebam o que é o sofrimento de um processo destes, quão longo é, o que envolve e que tipo de respeito deve ser dirigido a pessoas que passam por este tipo de processos."
O cantor admite que o caminho não será linear. "Peço imensa desculpa se, ao longo do percurso, tropeçar e transmitir alguma coisa com a qual não concordem. Mas também eu sou humano, também eu estou a passar por este processo, e há coisas que desconheço."
Nesse contexto, alerta para situações extremas que, diz, continuam a acontecer: "Existem muitas pessoas no mundo que morrem com overdoses porque acabam por se auto-medicar, que recorrem a dealers de bloqueadores de testosterona, que comercializam hormonas femininas e terapêutica hormonal." E reforça: "Há pessoas que, no desespero, na falta de apoio familiar e clínico, recorrem ao suicídio ou à auto-medicação, que as leva, muitas das vezes, à morte."
O próprio artista diz ter enfrentado dificuldades no acesso a cuidados: "Para desbloquear o processo de transição, tive de fazer-me de maluco e ligar para uma linha de prevenção do suicídio para ter consultas. Efetivamente, há pessoas que acabam por cometer suicídio quando não são ouvidas, quando não são atendidas e quando continuam a ter de lidar com um corpo com o qual não se identificam."
Apesar disso, mantém uma visão clara sobre a sua identidade. "Acho que as pessoas já começam a ver quem eu sou, porque a pessoa que vês à tua frente sou eu mesmo. O resto será só físico." E reforça: "O que vou manter do Carlos? Tudo. Língua comprida, personalidade forte..."
Quanto ao corpo, relativiza: "Eu vejo-me ao espelho, olho para o meu corpo, e não há assim nada com que não me identifique. É o meu corpo. Mas há coisas que gostaria que fossem diferentes ou melhores. É só estética. É só imagem. Não tem nada a ver com o nosso cérebro, com o nosso coração, com a nossa alma nem com a nossa forma de ser."
Paralelamente, revela que pretende explorar novas formas de contar a sua história nas redes sociais. "Vou continuar a recorrer à inteligência artificial para contar várias histórias daquilo que me aconteceu."
