Carlos Costa recorda o momento na infância em que percebeu que queria ser uma mulher
Numa entrevista exclusiva à SELFIE, Carlos Costa aborda, sem filtros, o processo de autodescoberta, a transição de género e o impacto das decisões que tomou na vida pessoal e pública.
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Cátia Soares
- 20 abr, 17:41
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Depois de ter revelado que decidiu avançar com o processo de transição de género, Carlos Costa diz estar pronto para assumir um novo capítulo.
"Preparado. Mais do que nunca", garante. Ainda assim, reconhece os desafios que essa decisão pode trazer: "Dará alguma luta aos mais próximos. Expor tudo aquilo que se está a passar e a minha decisão poderá voltar a trazer uma onda de instabilidade emocional e de proteção em relação à minha pessoa, mas a verdade é que a decisão só me cabe a mim."
Num processo que assume ser íntimo e ainda em construção, o cantor revela também a dificuldade em definir a forma como quer ser tratado por agora. "Ainda é muito difícil definir um pronome. Até que sinta realmente no meu coração que preciso imperativamente que me tratem por 'ela', é-me indiferente tratarem-me por 'ela' ou por 'ele'."
Depois de 15 anos de silêncio, Carlos Costa sente que chegou o momento de partilhar a sua verdade, reconhecendo que o fascínio pelo universo feminino o acompanha desde a infância.
"Lembro-me de ser muito pequenino e de estar a assistir ao concurso 'Miss Universo' às escondidas dos meus pais e de ter a certeza de que queria ser como aquela mulher que estava a ser coroada. Mas, nessa altura, não sabia o que era ser gay, o que era ser transexual", recorda.
"O meu fanatismo por tudo aquilo que são as mulheres foi crescendo. Eu sou, realmente, o maior fã das mulheres", confessa, acrescentando: "Só me captam filmes ou séries cujas personagens principais são femininas. É esse o nível de admiração que tenho pela mulher e que, aos poucos, fui transpondo para a minha imagem física."
Apesar das mudanças físicas, sublinha que a essência permanece e permanecerá sempre. "Isto é só o físico, porque o interior mantém-se lá. Tal e qual. Aliás, melhor, porque amadureci, cresci, consegui passar a dizer 'não' a algumas coisas, percebi que não conta tudo para aparecer, estou a aprender a jogar com aquilo que é o mediatismo. O Carlos que vês à tua frente não é o mesmo Carlos que participou na 'Quinta'."
Consciente do impacto da sua imagem, o cantor admite que esta exposição pode interferir com a perceção do seu trabalho. "A confusão e o barulho que existem à volta da minha imagem podem ofuscar o meu talento", reconhece, acrescentando: "Posso ser responsável por isso." Ainda assim, garante que não está disposto a abdicar de quem é: "Teria de matar a minha identidade atual."
Sobre as críticas, mantém uma postura serena: "Não me sinto minimamente melindrado nem ofendido, sei que as pessoas se escondem atrás dos ecrãs e escrevem barbaridades, mas, pessoalmente, comigo, são sempre incríveis. Mesmo que não gostem de mim, tentam, pelo menos, ser bem educadas." E garante que essa realidade mudou com o tempo: "Já la vai o tempo em que ia na rua e era ofendido."
Mais do que o julgamento pessoal, o que realmente o preocupa é o impacto das suas ações: "O que me incomoda é poder fazer algo que possa melindrar uma minoria ou representar de uma forma equivocada essa minoria."
