Bruno Andrade lança romance: "Um misto de drama com paixão, de sofrimento com tesão"
Depois de anos a contar histórias no jornalismo desportivo, Bruno Andrade prepara-se para nos dar a conhecer um lado bem diferente daquele que mostra na televisão enquanto jornalista e comentador.
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Cátia Soares
- 23 mar, 12:13
Comentador desportivo Bruno Andrade abre o álbum de memórias
A ideia não é nova, mas só recentemente ganhou consistência. Durante anos, Bruno Andrade foi guardando a vontade de escrever um livro, inicialmente com o futebol como pano de fundo. No entanto, acabou por seguir um caminho diferente. Em 2022, num momento pessoal delicado, começou a dar forma a um romance dramático, mergulhando numa escrita mais livre e criativa. O projeto acabou por ficar em pausa devido ao ritmo exigente do jornalismo, mas nunca foi abandonado. Já em 2026, decidiu retomar esta vontade antiga e, desta vez, com uma nova abordagem: transformar capítulos em contos independentes, testar a reação do público e perceber até onde pode ir nesta nova vertente. Um desafio completamente fora da zona de conforto e uma tentativa de se reinventar para além do futebol.
Em breve, vai apresentar um novo projeto, que nada tem a ver com desporto. Há quanto tempo está a trabalhar nessa ideia?
Há anos que trabalho dentro de mim a ideia de escrever um livro. Deixar uma espécie de "marca", algo do tipo. Cheguei a ter várias ideias (em vão) a envolver futebol, mas, no fim, senti que era preciso desafiar-me. Pensar fora da caixa. Acima de tudo, sair da minha zona de conforto. Em 2022, na altura da pior crise do meu antigo relacionamento, resolvi escrever um romance. Um romance dramático, no caso. Em pouco tempo, escrevi alguns bons capítulos. Mergulhei com tudo nessa realidade paralela, gostei do que estava a criar. Porém, a rotina pesada do trabalho jornalístico - para Brasil e Portugal - aos poucos, foi-me consumindo, afastando do livro. Deixei a ideia de lado durante muito tempo, mas nunca desisti de todo. No começo de 2026, decidi retomar a escrita. Uma retomada de forma diferente. Antes de avançar de vez com o livro, de finalizá-lo, achei que seria interessante transformar alguns capítulos em contos individuais. Para sentir o público. Para avaliar a aceitação, a repercussão, etc. E, não menos importante, para perceber se tenho mesmo jeito para isto. Ou não...
Como nasceu a vontade de escrever um livro de ficção?
É uma ficção, mas, no fundo, não é bem uma ficção. A personagem (mulher) que criei não existe, mas todas as experiências dela são reais. São histórias que vivi - na pele de homem - ou que ouvi de amigos e amigas ao longo da minha vida. A minha curiosidade sempre me fez parar para ouvir uma boa história. Sempre instiguei as pessoas a contarem aquilo que elas procuravam esconder ou simplesmente tinham vergonha de contar. Naturalmente, ao colocá-las agora no papel, estiquei aqui ou ali em alguns detalhes. A licença poética é uma arte.
Sempre teve interesse pela escrita literária ou foi algo que surgiu mais recentemente?
Não me recordo exatamente a altura, mas seguramente foi depois de ter começado a viajar com mais frequência pelo Brasil e, mais tarde, pelo mundo todo. Comecei a encarar as pessoas de outra forma, a expandir a minha rede de contatos e amizades, etc. Surgiu também porque passei mesmo a sentir que tinha bastante jeito para contar histórias, não apenas para ouvir essas ou outras histórias.
Foi um desafio mudar do registo informativo para um registo mais criativo e ficcional?
Totalmente. Nem tanto pelo lado criativo e ficcional, mas, sim, pelo formato da escrita. Estou acostumado a transformar longas histórias em curtas peças de reportagem. Passei boa parte da minha carreira a escrever com limitação de caracteres. A minha essência profissional é o jornal impresso. Espaços reduzidos. Aprendi a resumir. Com os meus 20 e poucos anos, comecei um esboço totalmente despretensioso de um livro sobre a relação com a minha primeira namorada. Escrevi apenas um capítulo. Ela leu e prontamente respondeu-me: "Praticamente, contaste tudo no primeiro capítulo." Fim.
Que tipo de romance podemos esperar?
Um misto de drama com paixão, de sofrimento com tesão. Suspenses eróticos. Experiências que levam a personagem do céu ao inferno. E também do inferno ao céu. A vida sexual dela é uma verdadeira confusão. Mas, acima de tudo, uma confusão bastante libidinosa.
E porquê uma protagonista mulher?
Porque escrever sobre um homem seria muito fácil. Uma vez ou outra, inclusive, seria escrever sobre mim. O desafio do livro é imaginar, mesmo que de forma irrisória, como pensa uma mulher, especialmente nos momentos mais íntimos e obscuros. Logo, é um desafio dentro de um desafio. Muito audacioso, eu sei.
Foi, então, um desafio entender o lado feminino e escrever como uma mulher?
Foi um desafio, é um desafio... e vai continuar a ser um desafio. Isso porque, ao longo da vida, percebi que as mulheres conseguem pensar como um homem com uma facilidade absurda, enquanto os homens raramente conseguem pensar como uma mulher. Até tentam, mas geralmente falham redondamente. Ainda assim, não me custa tentar, insistir, e talvez tenha êxito num ou noutro ponto.
Onde e a quem foi buscar inspiração?
Um pouco aqui, um pouco ali. Sim, a personagem tem um pouco de mim. Claro que tem. Não tenho razão para esconder. Mas também tem um pouco de tantas outras pessoas. Muitas pessoas mesmo. De pessoas que conheci de forma muita íntima e de pessoas que praticamente são anónimas para mim. Acredito que muita gente também se vai identificar com ela. Porque, no fundo, ela é uma parte de nós que muitas vezes tentamos esconder ou que queremos esquecer.
Teve receio de que o público pudesse interpretar que o romance era autobiográfico se o protagonista fosse um homem?
Sim, com certeza. Mesmo tendo um pouco de mim, volto a dizer: a inspiração vem de vários lados e de diversas pessoas. E vou continuar a procurar mais inspirações. Não posso e nem quero parar.
Há alguma inspiração no mundo do futebol ou é uma história completamente diferente?
Inicialmente, não havia nada ligado ao futebol. Zero. Entretanto, até para ser algo familiar para mim e também para aproximar as pessoas que já me conhecem do jornalismo desportivo, achei por bem colocar o futebol como plano de fundo para as aventuras e experiências da minha personagem. Acho que vai funcionar bem.
E o que espera que os leitores encontrem neste livro quando finalmente o puderem ler?
Identificação imediata ou muito prazer. Ou os dois. Seria o combo perfeito.
Escrever um romance exige uma disciplina e um tempo de reflexão diferentes do ritmo acelerado do jornalismo. Como tem sido conciliar esse processo criativo com o trabalho diário no futebol?
Totalmente. São exigências completamente distintas. Dito isso, ainda não encontrei o melhor - e mais saudável - equilíbrio, mas até acredito que seja por pura inexperiência e também uma certa falta de confiança. A estratégia de trocar inicialmente o livro por contos separados vai ajudar-me nisso tudo. Caso as críticas venham a ser mais positivas, seguramente vai ser aquele empurrão final que faltava.
Este projeto literário é algo pontual ou pode ser o início de uma nova vertente na sua carreira?
Espero que seja uma nova vertente. Ainda amo o que faço, amo o jornalismo desportivo, mas tenho a certeza absoluta de que, especialmente pelo insustentável clima de ódio e pela perseguição no futebol, não quero isso para sempre.
Podemos esperar mais livros no futuro?
Podemos... e devemos.
