Bruno Andrade: a dor que o transformou, o desejo de ser pai e o novo projeto fora do futebol
Do interior de São Paulo para os estúdios da televisão portuguesa, Bruno Andrade construiu uma carreira marcada pela curiosidade, pela paixão pela escrita e por um olhar crítico sobre o futebol. Nesta conversa com a SELFIE, o jornalista e comentador desportivo brasileiro fala da infância em Lorena, da mãe que o inspirou a seguir jornalismo, dos bastidores das grandes entrevistas e da experiência de comentar futebol em Portugal, mas também revela o lado mais pessoal e um novo sonho inesperado.
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Cátia Soares
- 18 mar, 19:01
Comentador desportivo Bruno Andrade abre o álbum de memórias
Nascido e criado em Lorena, no interior do estado de São Paulo, Bruno Andrade mudou-se há uma década para Portugal, onde se tornou uma voz conhecida no comentário desportivo e no jornalismo futebolístico. Ao longo da carreira, entrevistou algumas das maiores figuras do futebol mundial, cobriu grandes competições internacionais e construiu uma rede de fontes invejável. Em entrevista à SELFIE, revisita o percurso que começou ainda na universidade, fala da mudança para Lisboa, das diferenças entre os dois países no futebol e no jornalismo, e revela um lado mais íntimo da sua vida.
O Bruno nasceu em Lorena, no interior de São Paulo. Como foi crescer ali e que memórias guarda dessa fase da sua vida?
A melhor forma de definir Lorena? Vou sempre encher o peito para dizer que sou "lorenense". Nascido e criado. Tive uma infância privilegiada, nunca me faltou nada. Bem educado. Amado. Livre para andar aqui e ali. Solto. Foi assim que descobri que era um curioso por natureza. Falar de Lorena é falar, sobretudo, da minha (falecida) mãe. Sem dúvida, a minha maior inspiração para mergulhar com tudo e sem medo no mundo do jornalismo. Era professora de Língua Portuguesa. Uma mulher espetacular. De muita fibra, dentro e fora de casa. Em resumo: a incentivadora perfeita.
Infelizmente, partiu quando o Bruno ainda era muito jovem...
Ela morreu com 49 anos, bem perto de completar 50 anos - teria sido uma grande festa, inclusive. Sofreu um aneurisma cerebral e faleceu a dormir, na própria cama, em casa. Uma mãe brasileira, nascida e criada em São Paulo, que, depois, saiu da capital e rodou bastante com o meu pai. Caçapava, São José dos Campos e Lorena, tudo no interior de São Paulo. Quando ela morreu, eu tinha somente 17 anos. A partir dali, começou a surgir um outro Bruno...
"A minha mãe foi, sem dúvida, a minha maior inspiração para mergulhar com tudo e sem medo no mundo do jornalismo."
Que Bruno começou a surgir?
Um Bruno que seguramente me dá mais orgulho, e que daria mais orgulho a ela também. É um sentimento maluco, agridoce, até certo ponto injusto, mas é a pura verdade. Fui - e continuo a ser - apaixonado pela minha mãe, por tudo o que ela representa. Não existe mulher perfeita, mas ela esteve mesmo perto disso. Sem a presença dela, aprendi a ver o mundo de outra forma. Uma forma melhor, acredito. Ser mais independente. Ser mais pragmático. Em determinadas alturas, ser mais racional e menos emocional. Ganhei uma armadura ímpar para brigar com os meus próprios fantasmas. Fui obrigado a crescer mais rápido do que deveria. Frequentemente, dou por mim a pensar: como seria eu se ela estivesse viva até hoje? Admito que, uma vez ou outra, tenho muito medo do homem que poderia ter sido. Prefiro não conhecer essa minha outra versão. Estranho, não?
Nesta fase, o seu pai teve um papel determinante?
Existe um pai antes da morte da minha mãe e outro pai depois da morte da minha mãe. O primeiro não era meu amigo, o segundo é dos meus melhores amigos. O primeiro era disciplinador e distante, o segundo é amável e parceiro. Felizmente, os dois nunca me deixaram faltar nada, mas apenas o segundo passou a ser verdadeiramente presente. Sofreu bastante, mas, aos poucos, fez das tripas coração para assumir o papel de pai e mãe ao mesmo tempo. E conseguiu. Precisei perder uma mãe para ganhar um pai, sabe? Ele é um exemplo. Um herói. Seguimos com as nossas diferenças, e muitas vezes são bem conflitantes, mas aprendi que são elas que nos unem de verdade. Tem um orgulho absurdo em mim. Aprendemos a entender-nos. Respeitamos-nos. Serei eternamente grato por tudo aquilo que fez por mim e pelos meus irmãos. Os erros dele comigo? Ficaram todos no passado.
"Existe um pai antes da morte da minha mãe e outro pai depois da morte da minha mãe. Precisei perder uma mãe para ganhar um pai, sabe? Ele é um exemplo. Um herói."
E o futebol já estava presente no seu dia a dia quando era criança ou surgiu mais tarde?
O futebol sempre esteve comigo, assim como a aptidão para "investigar" e escrever. Isso, claro, sem falar no gosto pela leitura. Quando criança e adolescente, até levava jeito para jogar - os meus amigos de infância podem comprovar, inclusive. Entretanto, sempre fui um tanto quanto preguiçoso, então, seguramente não era algo para levar a sério, tampouco para ser um jogador profissional.
Quando começou a perceber que queria seguir a área da comunicação? Foi uma escolha natural ou houve algum momento específico que o levou a essa decisão?
Honestamente, desde que me conheço como gente. O amor pelo futebol e a paixão pela escrita sempre estiveram comigo, sempre caminharam lado a lado. O futebol? Por culpa do - meu antigo fanatismo pelo - Corinthians. O jornalismo? Por causa da minha mãe.
E o jornalismo desportivo foi algo que acabou por acontecer ao longo do percurso?
Nunca existiu outra hipótese na minha cabeça. Era jornalismo desportivo ou.... jornalismo desportivo. Hoje, mais experiente, já busco explorar outras vertentes do jornalismo e, sobretudo, da comunicação no geral.
"Nunca existiu outra hipótese na minha cabeça. Era jornalismo desportivo ou.... jornalismo desportivo."
Começou a carreira em 2008 no Diário LANCE!, um dos maiores jornais desportivos do Brasil. Como foi entrar num meio tão competitivo logo no início da carreira?
Foi algo raro, aliás. Isso porque entrei no LANCE! logo no meu primeiro semestre na universidade. Até então, o mais comum (quase uma regra) era conseguir estágio apenas a partir do quarto semestre. Foi um sonho realizado. Comprar e ler o LANCE! era dos meus maiores (e melhores) passatempos na adolescência. Recordo-me perfeitamente, inclusive, de ter dito a minha mãe, na véspera da morte dela, que, um dia, trabalharia no LANCE!. Uma conversa totalmente despretensiosa. Dito e feito. Destino...
Que aprendizagens e memórias desses primeiros anos no jornalismo ainda leva consigo hoje?
Foi a minha grande escola. Ali comecei a aprender a ser homem. A ser amigo. A ser colega. A ser profissional. Aprendi mesmo a ver definitivamente o mundo de forma diferente. Sou o que sou, como jornalista e ser humano, em boa parte graças ao que vivi ao longo de quase dez anos na redação do LANCE!.
"A entrevista mais marcante também acaba por ser a entrevista que mais me surpreendeu: Cristiano Ronaldo. Foi a única vez em que fiquei verdadeiramente nervoso antes de uma entrevista. Tremia. Suava."
Ao longo da carreira, já esteve em várias competições importantes e entrevistou algumas das maiores figuras do futebol mundial, como Cristiano Ronaldo, Neymar, José Mourinho, Fernando Santos, Tite, Daniel Alves ou Júlio César. Qual dessas entrevistas foi mais marcante para si? E qual foi a personalidade que mais o surpreendeu?
A entrevista mais marcante também acaba por ser a entrevista que mais me surpreendeu: Cristiano Ronaldo. Foi a única vez em que fiquei verdadeiramente nervoso antes de uma entrevista. Tremia. Suava. Surpreendeu-me porque o Ronaldo foi altamente solícito e amigável. De um profissionalismo ímpar. Passámos quase dez horas juntos, entre entrevista (dividida em três partes) e muita conversa informal. Foi um dia especial. Naturalmente, não posso esquecer também a entrevista que fiz com o Sócrates (ex-jogador). Era um ídolo para mim. Uma referência (dentro e fora do futebol). Por obra do destino, foi a última entrevista dele antes de morrer, em 2011, devido a uma infeção generalizada.
Existe alguma história curiosa ou inesperada que tenha acontecido durante uma dessas conversas?
Há um caso bastante impactante, e aconteceu antes de uma entrevista exclusiva com o Tite, ainda nos tempos de Corinthians (antes de ser selecionador do Brasil). Sempre tive uma ótima relação com ele, mas acabámos por ter um problema, muito mais por culpa minha e também da linha editorial do LANCE!. Ele ficou muito triste e dececionado com uma história publicada por nós. Isso mexeu comigo. Passei semanas a procurar uma forma de encontrá-lo para explicar a situação. No entanto, ele não queria falar comigo, tampouco ver-me. Arranjei, então, uma forma de surpreendê-lo, com ajuda do assessor de imprensa e do próprio filho dele. Apareci de surpresa num evento e, sem ninguém notar, fui ter com ele no estacionamento. Entrámos juntos no carro dele - também com o assessor de imprensa. Desabafei ali mesmo. Pedi desculpas. Abri o coração. Ele olhou para mim e disse: "Era exatamente isso que eu esperava de você! Esse é o Bruno que eu conheço." O resto é história...
E há ainda alguma figura do futebol que gostaria muito de entrevistar e ainda não teve oportunidade?
Já estive com o Lionel Messi em algumas flash-interviews (Mundial e Liga dos Campeões), mas nada como fazer uma entrevista exclusiva com o melhor jogador da história (Pelé foi o maior, não melhor). Cara a cara. Olho no olho. Quem sabe, um dia...
Em 2015, tomou a decisão de se mudar para Lisboa. O que o levou a dar esse passo e deixar o Brasil? O que o fez optar por Portugal?
Sempre tive a curiosidade - e o desejo - de ter uma experiência, especialmente profissional, fora do Brasil. Desafiar-me. Sair da zona de conforto. Inicialmente, sonhava com Inglaterra. Optei por Portugal por uma questão de rápida adaptação, isso até me organizar e rumar então a Inglaterra. Detalhe importante: a origem da família do meu pai é portuguesa, o que também pesou a favor. Felizmente, as coisas correram muito melhor do que eu esperava. O começo foi complicado, mas, assim que as coisas começaram a andar, andaram mesmo de forma positiva e significativa. Cá estou, desde então.
Que raízes são essas que o ligam a Portugal?
A minha avó nasceu em Portugal e foi, ainda criança, com a família para o Brasil. Já mais velha e separada do meu avô, ela voltou para a Europa, onde morou durante anos em Espanha (Málaga e Canárias) e também em Itália (Lecce). Foi uma cabeleireira bastante renomada. Sempre muito bem vestida. Estilosa. Bonita. Muitas vezes achavam até que era irmã do meu pai. Tenho ainda em Portugal, na zona de Leiria, alguns familiares bem distantes, com os quais praticamente não tenho relação. A minha família, aliás, ainda tem algumas terras por ali. Um dia, quem sabe, faço uma vivenda lá...
Foi uma decisão difícil mudar de país? Como foi o processo de adaptação a uma nova cidade, a um novo país e também a uma nova realidade no jornalismo desportivo?
Foi uma decisão bastante complicada, porque tive mesmo que abrir mão de muita, muita coisa no Brasil, inclusive do emprego no LANCE!. Felizmente, fui abraçado por muita gente boa em Portugal, especialmente dentro do próprio jornalismo. Apoio não faltou. Até por isso, a adaptação acabou por ser fácil. Dito isto, o jornalismo brasileiro é bem diferente do jornalismo português. Foi aí que senti o impacto de um país para o outro. O Brasil tem imensos problemas, enquanto Portugal tem imensas vantagens. Porém, quando o assunto é Comunicação, digo tranquilamente, e com enorme respeito, que o Brasil está muito, muito, muito mais avançado.
"Como brasileiro, percebi que sou um exemplo (não chamaria de 'inspiração') para os milhares de estrangeiros que moram em Portugal, especialmente os meus compatriotas. Se cheguei aqui, eles também podem chegar."
Desde que chegou a Portugal, passou por vários projetos e meios diferentes, como O Jogo, A Bola, Canal 11, CNN Portugal e TVI. Trabalhou tanto em reportagem como em comentário televisivo. Qual dessas funções sente que mais o desafia ou realiza?
A mais desafiante? Comentar. Muito por culpa da exposição mediática. A mais realizadora? Apurar e escrever. Tenho um enorme prazer em dar uma grande notícia ou perceber que uma crónica repercutiu positivamente. Cumpro atualmente as duas funções (para Portugal e Brasil, inclusive). Vivo o melhor dos dois mundos ou o pior dos dois mundos, dependendo do dia...
Que tipo de preparação lhe exige hoje o comentário televisivo?
Acompanhar o maior número possível de jogos. Admito: odeio assistir aos jogos que não têm menor graça, e eles, infelizmente, acabam por ser a maioria. Também acho fundamental ler e ouvir as análises de outros comentadores, até para fazer um confronto com as minhas próprias ideias. Leio muito. Estudo bastante. Nunca são palavras ao vento...
Como é ser o primeiro brasileiro a comentar futebol regularmente na televisão portuguesa?
No começo, era somente satisfação e pura alegria. Quase um conto de fadas. Depois, com o passar do tempo, passou a ser uma enorme e profunda responsabilidade. Sou um formador de opinião. Passei, então, a reconhecer perfeitamente o peso das minhas palavras e ideias. E, como brasileiro, percebi que sou um exemplo (não chamaria de 'inspiração') para os milhares de estrangeiros que moram em Portugal, especialmente os meus compatriotas. Se cheguei aqui, eles também podem chegar. Digo mais: espero, de coração, que façam até mais do que eu. Provavelmente, eu não chego mais longe. Eles, talvez sim.
Também desempenha o papel de correspondente internacional. Como funciona esse trabalho no dia a dia?
Tenho um programa diário (pela manhã) na ESPN Brasil, no qual praticamente não há espaço para opinião. É um programa mesmo de informação. Notícia pura. Dito isso, estou sempre à disposição para viajar pela Europa (e arredores) para fazer entrevistas e cobrir grandes eventos e jogos. Também, claro, para descobrir boas histórias. Recentemente, por exemplo, estive em Espanha para entrevistar os brasileiros Raphinha (Barcelona) e Antony (Betis). A próxima viagem é para a Ilha da Madeira, onde vou buscar histórias sobre o começo da carreira do treinador português Leonardo Jardim, que recentemente assumiu o Flamengo.
"Perco o furo, mas não perco a fonte."
Como se constrói e se mantém uma rede de fontes num meio tão competitivo como o futebol?
Pegar diariamente o telefone para ligar e enviar mensagens. Tirar o rabo da cadeira e sair por aí para falar (olho no olho) com as pessoas. Ser sempre o mais frontal e honesto possível. Perco o furo, mas não perco a fonte. Ser, acima de tudo, independente.
Depois de tantos anos em Portugal, que diferenças identifica entre o futebol português e o futebol brasileiro?
Há muito amor e fanatismo nos dois países. Nisso são iguais. Entretanto, há mais ódio em Portugal, isso porque o país tem apenas três grandes clubes: Benfica, FC Porto e Sporting. A rivalidade acaba por ser menos distribuída. É tudo muito perto, tudo muito intenso. Já o Brasil é gigante e tem pelo menos dez grandes clubes. Este, inclusive, é outro motivo crucial para o futebol brasileiro ser mais competitivo e nivelado do que o futebol português. Em Portugal, apenas os três grandes ganham. É assim desde sempre, e isso não vai mudar. No Brasil, apesar hoje da superioridade do Flamengo e do Palmeiras, os outros grandes estão sempre a incomodar, a ganhar, a dar trabalho, a investir, etc.
E no próprio jornalismo desportivo, sente que há formas diferentes de trabalhar e de contar histórias?
O jornalismo (desportivo) em Portugal é mais fechado e ligeiramente mais atrasado. Os clubes idem. Em Portugal, por exemplo, precisas de meses e meses para entrevistar um jogador, mesmo aquele que está a jogar bem e a vencer. No Brasil, geralmente vês o teu pedido ser aceite na mesma semana, independentemente da personagem em questão (bom ou ruim, bem ou mal). Como pode um assessor de imprensa de um grande clube português ignorar sumariamente a mensagem de um jornalista? Muitas vezes, nem sequer respondem em situações básicas. Sim, isso é real. Enfim, é tanta coisa para criticar...
O debate futebolístico em Portugal tornou-se demasiado agressivo?
Totalmente. E todos temos culpa disso: adeptos, jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, jornalistas e comentadores. O clima é mesmo insuportável. Sou a favor da provocação. Não existe futebol sem provocação. Qual é a graça de vencer e não provocar quem perdeu? Entretanto, quase sempre entramos - uns mais, outros menos - na falta de respeito e no ódio. Vivenciamos o pior que há no ser humano.
"O X (Twitter) é um esgoto humano virtual. Ganhei anos de vida desde que apaguei a minha conta. A crítica (ainda) mexe muito comigo. Dou demasiada importância ao que pensam de mim, e isso é péssimo quando és aquela pessoa que procura agradar a todos."
O futebol vive muito de opiniões fortes e de debate público. Como lida com as críticas quando elas surgem? E como encara a pressão e os ataques nas redes sociais?
Infelizmente, a crítica (ainda) mexe muito comigo, seja a boa ou a ruim. Dou demasiada importância ao que pensam de mim, e isso é péssimo quando és aquela pessoa que procura agradar a todos. Apaguei o X (Twitter) há quase dois anos, isso porque perdia horas e mais horas a ler o que achavam de mim. Antigamente, aliás, tentava responder praticamente a tudo aquilo que recebia. Tudo mesmo. Ganhei anos de vida desde que abri mão da minha conta no X. Uso frequentemente o Instagram. Ali o ambiente é um pouco menos pesado. Costumo dizer que o X (Twitter) é um esgoto humano virtual.
É mesmo possível comentar futebol em Portugal sem clubismo?
Com certeza. Qualquer comentador tem um clube. Qualquer jornalistas tem um clube. Felizmente, já trabalhei - e ainda trabalho - com profissionais que deixam a paixão clubística de lado na hora de opinar. São poucos, mas eles existem. Eu, no Brasil, consigo deixar tranquilamente o clubismo de lado na hora de falar do Corinthians. Até posso não ser totalmente imparcial, mas seguramente sou totalmente verdadeiro e independente.
"Sou do bem. Tenho um coração gigante e gosto mais de dar do que de receber."
Já houve algum momento na sua carreira em que sentiu que precisava de parar e repensar alguma posição ou comentário?
Sem dúvida. Serve para o jornalismo, mas também serve para a vida. Mudar de opinião não é um defeito, é uma virtude. Aliás, a graça de discutir futebol é perceber que podes estar errado. Eu não discuto para ter a razão. Eu discuto para dar a minha visão e, ao mesmo tempo, compreender a opinião dos outros.
Ao mesmo tempo, fora do futebol, como é o Bruno Andrade no dia a dia?
Igualmente preocupado com o que acham ou falam de mim. Igualmente pronto para (tentar) agradar a todos. Mas tudo isso num registo muito mais descontraído e leve. Sou do bem. Dono de um coração gigante. Prezo pela lei da boa vizinhança. O bem estar dos outros é o meu bem estar. Gosto mais de dar do que de receber. Apaixonado por plantas, viajar e cozinhar. Completamente vidrado na vida que tenho construído ao lado da minha esposa e melhor amiga, Bianca.
De quem herdou o gosto pela cozinha?
A minha mãe era uma cozinheira de mão cheia. O meu pai é um cozinheiro de mão cheia. Felizmente, tive ótimas referências. Comecei a cozinhar mais por obrigação, quando fui morar sozinho em São Paulo, ali com os meus 20 anos. Da obrigação surgiu a paixão. Sou um curioso por natureza, lembra? Isso também serve para a cozinha. Gosto de inventar, testar, arriscar, etc. E costumo acertar quase sempre. Adoro cozinhar para a Bianca e para os meus amigos. Faço um pouco de tudo: brasileira, italiana, mexicana, japonesa, etc. Sou craque nos mais variados tipos de risotto - o de cogumelos com queijo gorgonzola é o meu favorito. Faço temakis como poucos também. Recentemente, fui fazer um curso de cogumelos (para comer). Não fosse jornalista, seguramente teria entrado na gastronomia. Chef? Não sei. Mas no mínimo um (bom) cozinheiro.
E a paixão pelas plantas de onde vem?
Acho mesmo que uma casa fica sempre mais bonita com plantas. Com muito verde. Com vida. Elas precisam de mim, mas não reclamam. Cobram-me atenção em silêncio. É uma obrigação diferente. Não menos importante, é também um passatempo gostoso. Uma forma útil de esquecer os problemas do dia a dia.
A propósito do gosto pelas viagens... quais os destinos de eleição?
Em Portugal? Sou mesmo apaixonado pelos Açores. Costumo dizer, aliás, que fui uma vaca açoriana feliz na encarnação anterior - e olha que sou agnóstico. No mundo? A cidade que mais me impactou foi São Petersburgo. Uma próxima viagem de sonho? Rodar pela Islândia.
"Apaixonado por plantas, viajar e cozinhar. Completamente vidrado na vida que tenho construído ao lado da minha esposa e melhor amiga, Bianca."
Voltando atrás, o Bruno e a Bianca conheceram-se ainda no Brasil?
A minha relação com a Bianca é "antiga" e acabou por ter um hiato de uns dez anos e tal. Ela também é jornalista, trabalhava mais com assessoria de imprensa. Brasileira, sim. De Cafelândia, também no interior de São Paulo. Conhecêmo-nos, inclusive, por causa do jornalismo desportivo. Tivemos um curto relacionamento ali entre 2012 e 2013, coisa de algumas semanas, mas, depois, afastámos-nos. Continuámos a seguir-nos nas redes sociais, mas praticamente sem qualquer contato. A vida seguiu para ambos. Encontrei outra pessoa, fomos morar juntos, mudei-me para Portugal, casámos-nos e separámos-nos. Em 2023, já sozinho, fui de férias para o Brasil, especialmente por causa do casamento de um grande amigo. Neste período "em casa", enviei uma mensagem à Bianca. Prontamente combinámos uns copos. Reencontrámo-nos e, desde então, não nos separámos mais. Num espaço de menos de um ano, eu fui para o Brasil mais três vezes e ela veio para Portugal também em três oportunidades. À terceira foi de vez. Para ficar.
Há quanto tempo estão juntos?
Quase três anos juntos. Casámos-nos em maio passado. Sem grande cerimónia, algo pequeno mesmo, apenas entre familiares. Especial na mesma.
Pensam ter filhos?
Para ontem, se possível...
E que mais nos pode contar sobre o lado mais privado da sua vida?
Diariamente, escrevo bilhetes amorosos de "bom dia" para a Bianca. Dito isto, o próximo passo pessoal - e também profissional, obviamente - é ser escritor de romances. Nada, nada a ver com futebol.
O que gosta de fazer quando não está a trabalhar ou a acompanhar jogos?
Já disse que gosto de cozinhar? Modéstia à parte, sou muito bom cozinheiro.
"Portugal não me pertence. Sou do Brasil. Sou brasileiro. Serei sempre um imigrante em Portugal. Sempre. Um (feliz) forasteiro."
Portugal já se tornou casa ou continua a sentir uma ligação muito forte ao Brasil e à cidade onde nasceu?
Amo profundamente Portugal, sou muito feliz aqui, mas nunca vou ver Portugal como a minha casa. Nunca. Impossível. Portugal não me pertence. Sou do Brasil. Sou brasileiro. Sou de Lorena. Sou lorenense. Não é uma questão de sentimento, é mesmo uma questão prática. É algo lógico. Serei sempre um imigrante em Portugal. Sempre. Um (feliz) forasteiro.
A família continua no Brasil? E o Bruno pretende continuar em Portugal ou pensa, um dia, regressar ao Brasil?
A minha irmã mais velha - que continua a ser como uma mãe para mim - mora em Oeiras. O meu pai já morou em Oeiras, mas voltou para o Brasil. Tenho aqui também a irmã da minha esposa, bem pertinho mesmo, no Seixal, onde vivo há quase quatro anos. Pretendo viver muitos (bons) anos em Portugal ainda, mas tenho a certeza de que, mais cedo ou tarde, por obrigação ou opção, voltarei em definitivo para o Brasil. O que é meu está guardado. Um dia...
"Há dentro de mim uma mente criativa e provocadora pronta para contar histórias (reais e fictícias) que nada têm a ver diretamente com o futebol."
Em breve, vai apresentar um projeto inesperado na sua carreira. Mesmo sem revelar de que se trata, quer levantar a ponta do véu? Será uma vertente completamente nova e inesperada?
Acho que já dei uma pequena dica numa resposta anterior, não? Mas vamos lá: há dentro de mim uma mente criativa e provocadora pronta para contar histórias (reais e fictícias) que nada têm a ver diretamente com o futebol. O futebol, no máximo, está em segundo plano.
Olhando para trás, é o hoje o homem que imaginou?
Não, não necessariamente. Fosse hoje o homem que cheguei a imaginar no começo, seguramente seria muito infeliz. Atrasado. Conversador. Amargurado. Felizmente, passei por um longo processo de desconstrução nos últimos 15 anos. Aprendi muito com a vida, cresci muito com os meus erros. Justo dizer que estou, sim, muito mais próximo do homem que passei a imaginar - e desejar - quando compreendi, lá atrás, que o melhor seria optar por um caminho diferente. Estou cada vez mais orgulhoso de mim.
O que diria ao Bruno da sua infância/adolescência?
Profissionalmente? Força nisso, porque vai valer muito a pena. Pessoalmente? Evitar determinados erros e aprender ao máximo com alguns outros erros. Por favor, não caias naquela velha expressão ridícula: "Não me arrependo daquilo que fiz, arrependo-me somente daquilo que não fiz." Nada disso. Vais, sim, arrepender-te de algumas coisas...
"Quero ser pai. Quero tentar ser o pai que o meu pai foi para mim quando perdemos a minha mãe."
O que faria de diferente?
Valorizaria e respeitaria mais determinadas pessoas que foram fundamentais na minha vida. E, não menos importante, também deixaria de dar tamanha importância para as caixas de comentários nas redes sociais. É o lixo do lixo.
Onde se imagina daqui a 5/10 anos?
A contar as melhores histórias para o mundo e as mais especiais e construtivas para a minha filha (Helena) ou para o meu filho (Antônio). Quero ser pai. Quero tentar ser o pai que o meu pai foi para mim quando perdemos a minha mãe.
