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Após receber prémio, André Carvalho Ramos fala sobre episódio vivido em direto: "Fomos invadidos por aquela crueldade"

Em exclusivo à SELFIE, André Carvalho Ramos reage à distinção que foi feita a uma reportagem da autoria do jornalista.

Recentemente, "A Última Fronteira" ganhou um novo prémio, desta vez atribuído pela Corações com Coroa. A que sabe este reconhecimento?
É extraordinário, porque a Corações com Coroa é uma associação liderada pela Catarina Furtado, por quem tenho uma grande estima e que também reportou a realidade de inúmeros campos de refugiados. Bem mais do que aqueles em que eu estive. Uma distinção destas é boa para o jornalismo, porque incentiva a fazer mais, mas é também importante porque coloca-nos todos a falar novamente das pessoas cujos direitos fundamentais são violados.

Sente que este é o seu melhor trabalho jornalístico?
Sem dúvida. Tenho batalhado muito para criar as minhas próprias oportunidades, sinto-me realizado naquilo que faço todos os dias, mas este trabalho em particular é o mais completo. O jornalismo vive dias difíceis, todos sabemos, mas há um fator que é comum a todas as redações: não há tempo. tudo tem de ser para ontem, tudo tem de ser imediato, tudo tem de ser rápido. Neste caso, são oito anos... Quão raro é termos oito anos para aprofundar um tema? Não existe. É raríssimo. Essa é a grande mais-valia: o tempo que dediquei a este livro.

Não trabalhando para prémios, este reconhecimento faz-lhe sentir que está no caminho certo como jornalista?
Espero estar. Lembro-me perfeitamente quando recebi o Golden Nymph Award, no Festival de Televisão de Monte Carlo, de ter dito ao Príncipe Alberto do Mónaco que aquele prémio ia mudar a minha vida. Eu não sabia é que mudaria tanto. Os prémios não são um objetivo, porque, senão, ficaríamos frustrados: são muitas mais as vezes em que não se ganha. Os prémios, para mim, são um meio para conseguirmos fazer melhor jornalismo: reforçam-nos a credibilidade, estimulam-nos a fazer melhor e responsabilizam-nos para mantermos a fasquia.

Como é que, enquanto jornalista, vê a atualidade do mundo?
O mundo precisa cada vez mais de jornalistas. Uma componente da guerra é a coação psicológica e estratégias de desinformação. São componentes menos discutidas, mas que têm um impacto tão importante como a militar. Só um jornalismo forte consegue reduzir os riscos da instrumentalização destas áreas da nossa vida que podem ter impacto significativo na nossa democracia.

Ter de dar estas notícias, de alguma forma, transtorna-o?
Não, é precisamente por isto que quis ser jornalista. Naturalmente, ao logo do tempo vamos amadurecendo e conseguimos lidar melhor com a dureza da realidade que nos chega todos os dias. Mas, depois, também há momentos, aparentemente simples, que nos conseguem deitar ao chão. Lembro-me perfeitamente de estar numa emissão sobre a guerra na Ucrânia, depois de ter voltado de Odessa, e de estar em estúdio com a Diana Soller, comentadora da CNN. Dei uma notícia sobre uma mulher que foi morta no massacre russo em Bucha e que foi identificada pela cor das unhas. A fotografia que colocámos no ar era apenas a mão, estendida no chão, cheia de terra negra e com as unhas pintadas de um cor-de-rosa vivo. Tanto eu como a Diana Soller, de repente, parámos a olhar para a fotografia e fomos invadidos por aquela crueldade. Nestes momentos, a adrenalina da emissão em direto desaparece e as nossas emoções tomam-lhe o lugar. Mas temos de nos recompor, secar os olhos e continuar.

Jornalistas da nova geração, como é o seu caso, têm ganhado cada vez mais protagonismo, justamente devido ao trabalho que têm realizado. Considera que o jornalismo está bem entregue?
Quero acreditar que sim, mas prefiro agir como se a resposta fosse que não. Há muitos desafios ao jornalismo, à permanência dos bons jornalistas nesta profissão, por isso, prefiro agir todos os dias como se fosse a oportunidade derradeira para mostrar que o jornalismo está vivo. Não podemos vacilar.

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