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Magda Burity: "Não era já para dizer adeus, Larama"

Foi há três dias, mas precisei de interiorizar a partida de Larama. Pesquisar imagens e vídeos sobre o komba - manifestações de sofrimento quando alguém perde a vida em Angola - e eternizar estas linhas sobre mais um herói do povo angolano que tombou.

Lembram-se de quando o Zé Maria ganhou o "Big Brother", naquela passagem de ano de 2000 para 2001, e foi carregado, em braços, para a sua terra natal? Em que foi levado ao colo por todos os portugueses que o elegeram vencedor e que quase todo um Portugal parou para assistir a um programa de TV, em direto, em plena noite de passagem de ano?

Aposta arriscada para quem percebe de televisão, mas bem medida para quem tem sensibilidade e sente o povo. Foi isso que aconteceu com o Larama.

Venceu o primeiro "Big Brother Angola", em 2014, e tornou-se o herói dos angolanos. Não me canso de frisar que a ideia de Angola que é passada em Portugal, em que os escândalos económicos, a corrupção e a política engolem o povo, que fica sempre em último lugar, mas foram eles que colocaram o Larama no lugar em que ele esteve, nos últimos anos de vida.

O Larama, quando chegou a Portugal como 'celebridade', no programa "A Quinta", criou alguns anticorpos, como dizem os ingleses o termo 'how dare?' - como te atreves? - esteve em muitos olhares dos seus colegas, que, culturalmente, não entendiam que ele era mesmo uma celebridade no seu país. Também por falta de informação e interesse, já que uma conversa pode desbloquear muito gelo. A empatia também.

Por isso, durante o tempo em que tive oportunidade de assistir ao programa, diverti-me imenso com a dupla que fazia com o Ruben da Cruz, que tem raízes angolanas, e com os confrontos com as celebridades de serviço.

O Larama representou no "BBA" e n' "A Quinta" o orgulho de ser angolano. O sonho da classe média e média-baixa, que, em Angola, só tem acesso a estes conteúdos por pay tv e, mesmo assim, se 'virava nos 30' para, quinzenal ou mensalmente, pagar para ver o seu herói na DSTV e, mais tarde, na TVI África. Um projeto que o Nuno Santos, na altura diretor de conteúdos da gigante Multichoice, levou para Angola e Moçambique e nos juntou como povos irmãos.

Quando se olha para o Larama e se recua num tempo não tão distante assim, devemos registar que foi visto por milhões de pessoas, em Angola, Moçambique e Portugal. Tinha visão de jogo e conteúdo para qualquer reality show em que participasse, como revelou Teresa Guilherme, e eu subscrevo.

E, quando ganhou o programa que viria a mudar a sua vida, foi recebido por uma multidão, no aeroporto 4 de Fevereiro, em Luanda, e percorreu a cidade toda, num camião, com o povo atrás. Como diz a Adriana Prista, da Multichoice, "não me lembro de assistir a uma passeata destas com outra pessoa em Angola", e eu acrescento: que não seja por motivos políticos.

Por isso, Larama, esse adeus foi um murro no estômago.