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Magda Burity sobre Sara Carreira: "E se fosse consigo?"

Magda Burity

É uma célebre frase de um programa da autoria da jornalista Conceição Lino, que muito admiro. Esse programa, através de exemplos ficcionados de atentados à dignidade e aos direitos humanos, leva-nos à reflexão de como nos andamos a tratar uns aos outros, nesta passagem pela Terra, e ao debate sobre a conduta humana.

Uso este exemplo para refletirmos juntos sobre tudo o que está a acontecer à volta da família Carreira, originado pelo desaparecimento trágico e repentino da Sara, com apenas 21 anos.

Antes de serem a família Carreira, eles são uma família. Passo a redundância para dizer que são uma instituição que se baseia em princípios sólidos de união e respeito. Não os conheço e desconheço a carreira deles, my bad, porque, tal como Tony Carreira, sou uma emigrante. Fui para Moçambique, aos 28 anos, em busca de melhores condições de trabalho, e, consequentemente, estive ausente de Portugal durante 15 anos.

Nas minhas férias, fazia como todos os emigrantes e procurava os afetos dos meus. Aqui, faz sentido dizer "meus", porque é isto que alguém que está fora do seu país sente. Acreditem. Por isso, pouco me atualizava sobre o que se passava no país, onde nasci e cresci.

É o primeiro ponto que me faz solidarizar para com este homem, que lutou por uma vida melhor e conseguiu regressar ao seu país com um nome construído lá fora e, finalmente, ser admirado em casa, através da profissão que escolheu. Ainda um desejo meu!

No meu universo, não se ouve a música dos Carreira, não por razões pessoais, mas porque não é o nosso estilo. Mais uma razão para, como cidadã, me sentir no papel de apoiar a dor desta família e de me solidarizar, neste início de dezembro, perante uma perda tão prematura para este clã e para Portugal.

Sim, para Portugal porque, do que tenho lido nos últimos dois dias, eles são queridos por muitos portugueses, cá dentro e lá fora. O mundo da música, da televisão e do digital, que ganhou, por via do trabalho de cada membro da família, muito conteúdo e momentos de emoção e felicidade.

Têm noção da importância disso? De que, às vezes, um artista pode estar em farrapos por dentro e, devido a compromissos profissionais, consegue dar a volta por cima?

Até a minha querida avozinha Dite me apresentou o Mickael Carreira, numa férias, em Lisboa, quando estávamos a ver o "The Voice Portugal" e ela ficava muito contente pela dupla com o Anselmo Ralph, no programa. Falava disso até ao fim que coincide com o dezembro passado...

São estes pormenores do dia a dia, que, hoje, ninguém está a dar valor, que deviam contar para consolar esta família. Não o poder económico, o carro em que a miúda estava ou a necessidade de atribuir culpas à velocidade.

Eu já tive um acidente de carro com o meu avô, há mais de 30 anos, quando estava a regressar do nosso Chalet de Bucelas. Até hoje, tenho uma cicatriz na testa. Acidentes de carro acontecem. Também podia ter sido fatal. Mas só Deus sabe.

Não interessa a cilindrada do carro, não interessa mais nada, a não ser questionarmo-nos: "E se fosse comigo?". E se fosse com o meu irmão Yannick, que tem 17 anos, ou com a minha sobrinha Yuni, que tem a mesma idade, e já podem fazer viagens?

A dimensão da notícia da Sara tem a exposição que a sua família conquistou, mas merece o respeito e o silêncio da dor.

Tenho pensado muito nesta família, no meu primo Gustavo, que tem uma idade próxima da da Sara, e em todas as pessoas que estão diretamente ligadas a ela e a eles. São jovens. Sim. Têm o mundo pela frente e nós, também. Por isso, vamos praticar a empatia e, tal como sugeriu o jornalista José Alberto Carvalho, há uns dias, "pense duas vezes, antes de começar a escrever no seu telefone", computador ou tablet.

Pode acontecer com qualquer um de nós.

Que a Sara Carreira possa descansar em paz.