Em entrevista reveladora, Marisa Cruz recorda passado: "Não tínhamos quase o que comer"

Igor Pires
Conta-me como és - Fátima Lopes entrevista Marisa Cruz
Pensa rápido com Marisa Cruz
Marisa Cruz no "Conta-me Como És"
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Marisa Cruz na Selfie

A apresentadora e atriz Marisa Cruz teve uma conversa emotiva com Fátima Lopes, no programa "Conta-me como És".

Marisa Cruz foi a convidada deste sábado, dia 21, de Fátima Lopes, no programa "Conta-me como És". Numa conversa franca, a atriz e apresentadora abordou o trajeto pessoal e profissional.

No começo da entrevista, Marisa Cruz abordou o início da carreira como modelo. “Não era o meu sonho. Fui para a moda, porque a minha mãe me levou a uma agência”, começa por revelar Marisa Cruz. A apresentadora do "Somos Portugal" ainda afirmou que nem sequer achava que tinha as qualidades necessárias para ser modelo. 

“Fui para uma agência de manequins com 15/16 anos. Usava óculos grandes, não me sentia bonita. Era muito alta e muito magra. Quando me propuseram concorrer à Miss Portugal, achei aquilo ridículo, mesmo, porque achava que nem sequer ia ser selecionada. A moda é realmente um sítio bonito, onde nos põem bonitas, conhecemos sítios maravilhosos… Viajei e, se calhar, de outra maneira não tinha tido essa oportunidade. Mas fui sempre uma espetadora, aquilo não era a minha essência”, partilhou.

Marisa Cruz admitiu, ainda, que nunca teve muito tempo para sonhar ser alguma coisa. “Queria ser veterinária, depois quis ser bailarina, não cheguei a uma fase de me dar a esse luxo de ter oportunidade de pensar no que é que queria ser. Não tive”, destacou.

“Vim muito nova de Angola. O meu único irmão de mãe e pai nasceu cá. Fomos separados muito novos, eu fiquei com a minha mãe, e a partir daí a minha vida foi um reboliço. Nunca tive aquelas memórias do Natal, a minha vida sempre foi aqui e ali. Ficávamos num sítio e depois íamos para outro. Em casa de amigos, pensões… Depois, já mais velha, tive que ajudar a minha mãe, fui trabalhar com ela. Trabalhei em limpezas, num café, fiz um pouco de tudo e nunca consegui criar raízes em lado nenhum, porque sempre me habituei a sobreviver sozinha”, recordou.

Marisa Cruz ainda lembra que era cuidadora dos cinco irmãos. “Não tínhamos quase o que comer e tive que inventar com o que tinha”, recordou. Atualmente, mantém uma “boa relação” com os irmãos, que vivem fora de Portugal. 

Tendo estudado até ao 9.º ano, o rosto da TVI contou com um percurso escolar atribulado. “Eu estava na escola, a minha mãe chegava e dizia que tínhamos que ir para ali e deixava o ano a meio”, afirmou, contando que esta situação repetiu-se várias vezes. “Não tive a oportunidade de estudar como gostaria. E muitas vezes em conversa com amigas mais novas que diziam que iam tirar o curso disto e daquilo, eu estava a trabalhar, tinha que trabalhar. Sentia-me inferiorizada”, explicou. 

Autónoma desde cedo, Marisa Cruz começou a viver sozinha aos 17 anos, depois de a mãe se mudar para Londres e de Marisa ter preferido ficar no nosso país. “Parece um bocado cruel o que vou dizer, mas foi como eu me senti: senti-me em paz [por a mãe ter ido embora]”, contou. Na época, acabou por dividir um quarto com uma amiga, no Bairro Alto: “Essa começou a ser a minha vida, o sítio onde me sentia em casa, com os meus amigos da agência, pessoas que ia conhecendo”.

Além do percurso na moda, Marisa Cruz também se tem destacado na apresentação e na representação. E, ao longo destes anos de trabalho, continua a sentir que a beleza tem mais relevância do que o talento: “Infelizmente, hoje em dia, e não é só comigo, as pessoas têm uma facilidade em julgar os outros… Antigamente, quando saía alguma notícia e eu ia ler os comentários... era tão triste. Nunca me dei a conhecer, é certo, as pessoas não sabem o meu passado, agora sabem um bocadinho, mas isto é só um bocadinho. Se as pessoas vivessem o que eu vivi, caminhassem um bocadinho do que eu caminhei, compreenderiam algumas escolhas que tive na vida, compreenderiam opções que tive que, se calhar, não foram as mais corretas e não julgavam a loira burra”.

“Sim, gostava de ter tirado um curso superior, gostava de ter estudado. Não pude. Hoje em dia também percebo e sei que a inteligência não se vai buscar num curso. Hoje em dia aprendi tanto com a vida, com o que vivi, com o que viajei, as pessoas que conheci, aprendi de outra maneira. Não me sinto uma pessoa burra, nem fútil, nem vazia, muito pelo contrário”, acrescentou.

Na entrevista, Marisa Cruz ainda relembrou um episódio infeliz: a descoberta, aos oito ou nove anos, de que o pai tinha falecido. "Da maneira que soube foi um bocado traumático, foi violento e é um dos momentos da minha vida de que me recordo, infelizmente, que foi no meio de uma discussão da minha mãe com o meu padrasto. Eles já sabiam que ele tinha morrido e ele [o padrasto] vira-se para mim e atira aquela bomba: ‘Estás a olhar, mas nem sabes. O teu pai já morreu’. E eu desatei a chorar, a correr. São coisas por que nenhuma criança deveria passar”, recordou, acrescentando que teve pouquíssimo contacto com o progenitor.

“Ele estava preso, não sei muito bem porquê, e lembro-me de o ter visitado com a minha mãe. É a última memória que tenho dele, e de ele me oferecer um fio de ouro”, lembrou.

Atualmente, com 45 anos, sente-se uma mulher amada e tem pessoas à sua volta que estão sempre disponíveis e a apoiá-la. A relação que tem com os filhos é “a coisa mais maravilhosa”: “Eles são mesmo o melhor de mim. Quero que eles se orgulhem da mãe que têm. Quero dar-lhes o melhor de mim. Quero crescer com eles, acompanhá-los”.

(Re)veja a entrevista na íntegra.