Entrevistas

Calema: "Quebrámos algumas barreiras"

Numa entrevista exclusiva concedida à SELFIE, os Calema fizeram um balanço do percurso na música, considerando que já quebraram algumas barreiras.

O tempo voa e já passaram cerca de dez anos desde que lançaram o primeiro álbum. Qual tem sido o segredo para o êxito?
Sim, como o tempo passa rápido! Não há segredo, da mesma forma que não há fórmula mágica. É gostar do que se faz, trabalhar muito, dedicação, ter sempre foco no que se quer. É um desafio constante, uma luta, não baixar os braços, e, claro, acreditar que é possível. Não desistir dos sonhos é o mais importante.

Em jeito de balanço, qual foi aquela conquista que já alcançaram e que, há cerca de dez anos, achariam impossível?
Todas! Quando começámos apenas sabíamos que gostávamos de fazer música, que não íamos desistir, que tínhamos de lutar muito para conseguir chegar a algum lugar. Que não ia ser fácil. Sempre tivemos e continuamos a ter fé. Acreditamos. Por isso, todas as conquistas têm um sabor especial, pois cada uma delas representa uma meta atingida, um objetivo cumprido. 

Conseguem escolher um concerto que tenha sido especialmente marcante?
Acho que todos são marcantes, seja pela quantidade de público que está presente, seja pela forma como comunicamos com as pessoas que estão ali para nos ouvir. Seja pela forma como as pessoas sabem e cantam as nossas músicas. Só temos de agradecer ao nosso público o carinho que temos recebido.

E o que é que vos falta alcançar ainda? Qual é o próximo objetivo?
Tudo o que ainda não conquistámos! Cada dia é uma conquista, um desafio novo! 2022 tem sido muito bom. No início do ano, a música "Te Amo" foi seis vezes Platina. Depois, atingimos 1 milhão de ouvintes mensais no Spotify, somos os segundos a consegui-lo. Em agosto, atingimos os 100 milhões de visualizações no YouTube com a música "A Nossa Vez". Estamos orgulhosos: pela primeira vez, uma música cantada em português, dentro dos países lusófonos, tirando o Brasil, conquista esses números. Somos os primeiros! Foi um objetivo que tínhamos colocado há uns anos, juntamente com a nossa equipa. A música saiu em 2017 e tem sido um crescendo, um trabalhar todos os dias, cada vez mais e melhor. É esse o nosso objetivo: levar, cada vez mais, a música lusófona além-fronteiras. É um sentimento de missão cumprida. Claro que isso só é possível, graças a todos os que nos ouvem, que partilham as nossas músicas. Mas muito mais está para vir, estamos a trabalhar num novo álbum… Acima de tudo, é a continuação da mensagem que sempre passamos. Esperem para ver, vão gostar!

Consideram-se, atualmente, uns dos embaixadores de São Tomé e Príncipe?
Gostamos de São Tomé e Príncipe, foi lá que nascemos, crescemos, que começámos os primeiros acordes na música. Está no nosso coração e fazemos questão de nunca esquecer isso, de onde viemos. Acima de tudo, o que tentamos mostrar e passar é que qualquer pessoa, independentemente de onde venha, desde que saiba o que quer, tenha foco num objetivo, juntando garra, luta e, claro, alguns sacrifícios, consegue atingir aquilo a que se propôs. Nós somos exemplo disso, por tudo o que temos conseguido. Achamos que quebrámos algumas barreiras, mas muitas mais faltam quebrar. Para isso, basta lutar e acreditar!

E foi mesmo a vossa família quem vos incutiu este gosto pela música? Ou ele surgiu de outra forma?
Nascemos e crescemos em São Tomé e Príncipe e, por lá, a música faz parte da vida de todos, desde pequenos que as crianças estão habituadas a ouvirem música. No nosso caso, essa influência surgiu através de vários artistas brasileiros, mas sem dúvida que uns dos grandes impulsionadores foram os nossos pais, até porque eles sempre acreditaram em nós, viram a nossa luz musical, ainda quando éramos pequenos. Na altura, incentivaram-nos a juntarmos vozes e formarmos uma dupla.

Quando é que a música deixou de ser um mero passatempo e se transformou num modo de vida?
Na altura em que vivíamos em São Tomé, muitas das noites eram passadas a tocar guitarra e a cantar. São recordações muito fortes, com muito sentimento e isso marca-nos, para sempre. No entanto, nessa altura, não víamos a música como algo grande, ou profissional. Apenas como um passatempo. Com a nossa vinda para Portugal e, depois, a ida para França, aquilo que era inicialmente era um sonho foi-se tornando realidade, a pouco e pouco, a cada concerto que dávamos, percebíamos que era exatamente isso que queríamos fazer. Estamos contentes com o que temos conquistado.

E sempre tiveram o apoio da família?
Sim, aliás, foram quase como que os responsáveis [risos]. E, ainda hoje, continuam a apoiar, a estar connosco e, sempre que podem, vão aos nossos concertos.

Ainda se lembram da primeira vez em que atuaram juntos, ao vivo, com público?
A primeira vez foi em São Tomé e Príncipe, tínhamos o nosso público de lá, da escola. Mas, mais a sério, foi já em Paris, em alguns eventos, e muitos deles nos levaram por alguns países da Europa.

É conhecida a vossa participação no "The Voice França", apesar de, na prova cega, nenhum jurado ter virado a cadeira. Ainda se recordam de como se sentiram, perante essa rejeição?
Claro! Foi um momento marcante nas nossas vidas. É verdade que as cadeiras do "The Voice França", em 2012, não se viraram, mas sentimos um orgulho imenso de lá estar, de levantar a nossa bandeira, de cantar na nossa língua, ao interpretar uma música do Gusttavo Lima. Foi uma vitória para nós. Tudo isso deu-nos mais força e garra para continuarmos, a não desistirmos. Temos a certeza de que a nossa passagem por França nos ensinou muito ao nível da música ao vivo, a nossa comunicação com as pessoas. Hoje em dia, temos a noção de que cada passo que nós demos, cada queda (foram poucas, graças a Deus) nos ajudou a crescer como artistas e como pessoas. A ter os pés bem assentes na Terra. Sorrimos orgulhosos e, sempre, com a mesma força de vencer e sem nunca deixar de acreditar.

Sentem que são um exemplo de resiliência para muitos jovens?
Achamos que sim, até pelo nosso percurso, e gostávamos que assim fosse. Temos muitos jovens que ouvem as nossas músicas, que vão aos nossos concertos. No entanto, é preciso relembrar que, sem trabalho, sem garra, sem persistência e sem luta, nada se consegue.

Em 2019, concorreram ao Festival da Canção. Que recordações guardam dessa participação?
Foi bom, mais uma etapa na nossa carreira que levámos com alegria. Apesar de estarmos ali a competir para ver quem ia representar Portugal, todos nos respeitávamos. Isso é muito importante. Recordamos que houve uma diversidade cultural e musical muito grande. Portugal deve ser, sempre, representado por pessoas que têm orgulho em serem portugueses, e isto em qualquer área, não só na música.

Quais são as vantagens e as desvantagens de serem uma dupla de irmãos?
Achamos que só há vantagens [risos]. A verdade é que sermos irmãos torna tudo mais fácil, porque há uma cumplicidade e intimidade desde sempre. Desde muito cedo que os nossos objetivos foram os mesmos, caminhamos na mesma direção, sempre nos entendemos, crescemos juntos. Sorrimos com as mesmas conquistas e esperamos continuar, sempre, com esta alegria em palco, esta vida e vontade de cantar e dançar. Queremos levar a música em português a mais pessoas.

Além de serem intérpretes, também são compositores e letristas dos próprios temas... O que é mais desafiante?
A música, em si, é todo um desafio, um exercício de introspeção, de criação, de composição, desde que nasce até ao resultado final, é sempre algo novo, algo desafiante. Por isso, é sempre muito bom e gratificante estarmos envolvidos em todos os momentos de um tema.

Quais são as vossas principais inspirações para compor?
Tudo nos influencia, o ambiente em que vivemos, as nossas relações com as pessoas… Somos muito observadores, o que faz com que o sentimento e o ritmo musical estejam, diariamente, em nós. Sem dúvida que uma vida com música é muito mais alegre e gratificante, além de nos deixar bem-dispostos!

Recentemente, lançaram um single com o cantor brasileiro Zé Felipe. Como surgiu essa parceria?
É verdade, o single "Onde Anda" estreou-se a 1 de abril deste ano. Está a ser um sucesso, já tem 20 milhões de visualizações no YouTube! Foi a junção da vontade de três artistas, nós, os irmãos Calema, e o Zé Felipe. Todos nós adoramos fazer música, então pensámos: "Porque não?" E nós sempre gostámos de música brasileira. Achamos que resultou muito bem esta mistura de ritmos africanos e brasileiros. As pessoas cantam e dançam, a toda a hora!

Esta é uma forma de chegar, ainda mais, ao Brasil?
Nós fazemos música e é através dela que chegamos às pessoas, pois fazemos e criamos canções para as pessoas ouvirem e dançar. E isto é para qualquer parte do mundo.

Qual é o próximo artista internacional com quem gostavam de trabalhar?
Gostamos de trabalhar seja com artistas nacionais ou internacionais, mas podemos dizer que já temos planos e projetos que, em breve, vão ser divulgados. Fiquem à espera!

Têm um forte lado de intervenção social, evidente, nomeadamente, com a vossa Associação, a Bomu Kelê. Qual foi o maior objetivo alcançado, até agora, com essa Associação?
Vivemos em sociedade e, por isso mesmo, não nos podemos abstrair do que nos rodeia, seja em Portugal, em São Tomé, ou em qualquer outra parte do mundo. Bomu Kelê quer dizer "Vamos Acreditar", que é, também, o nome do nosso álbum que foi lançado em 2014. Sempre foi essa filosofia que nos guiou e continua a guiar. E é nesse sentido - acreditar e fazer algo por um mundo melhor - que a Associação Bomu Kelê existe. É verdade que já levámos muitos bens essenciais para São Tomé, especialmente para as crianças e lá existem muitas… Também já participámos em ações em Portugal. Mas muito mais está em plano. E um deles, sem dúvida, é ajudar a capacitar as pessoas, permitir que possam ir mais longe, concretizando sonhos, assim como nós concretizámos o nosso. Gostávamos de ajudar a desenvolver a música feita em São Tomé e Príncipe, e já existem projetos nesse sentido. Há um provérbio africano que diz o seguinte: "Se queremos ir depressa vamos sozinhos, se queremos ir longe vamos acompanhados."

É fácil conciliar a vida profissional com a vida pessoal?
No início de 2021, lançámos o álbum "Yellow", que deu, igualmente, nome à tour de 2021 e que, felizmente, tem continuado em 2022. Abrimos o ano com concertos nos Coliseus de Lisboa e Porto - todos esgotados. Tem sido um ano repleto de concertos tanto em Portugal, como lá fora. Só este ano, já estivemos em Paris, na Holanda, no Luxemburgo, no Canadá, nos EUA, na Suíça, em Moçambique, em Cabo Verde, entre outros. É verdade que, durante o verão, acabamos por dar mais concertos cá em Portugal, não paramos e têm sido um sucesso, sempre com muito público. Por isso, o segredo é aproveitarmos os dias em que não temos concertos para estarmos com as pessoas que amamos: os nossos filhos, os nossos familiares e claro que, também, com os amigos.

Falando sobre os tempos livres, é verdade que gostam de pescar? Costumam pescar muito em Portugal?
Sim, é verdade. Faz-nos recordar os tempos em que vivíamos em São Tomé. Mas, hoje em dia, infelizmente, não temos tanto tempo assim… Pode ser que, quando formos a São Tomé, consigamos "matar" a saudade [risos].

Uma vez referiram que "o segredo de um vencedor é acreditar na vitória e destruir barreiras com a fé". Foi mesmo a fé que nunca os deixou desistir?
É "bomu kelê", sem dúvida alguma. É ter fé. É um acreditar enorme que nos trouxe até aqui, que nos permitiu conquistar o que temos. É acreditar que somos capazes, ter fé e continuar a trabalhar muito. Na nossa vida, cada passo que damos é uma conquista, seguido de um novo desafio. Só isso nos faz crescer, sermos melhores. Estas conquistas, este crescimento também devemos muito ao nosso público, que contribuiu bastante para o nosso sucesso. São eles que nos acompanham, que ouvem as nossas músicas, que vão aos nossos concertos. A eles, muito obrigado!

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