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Marco Horácio: "Não mudei para a TVI pelo dinheiro. Quis estar mais próximo das pessoas"

"A Vida Lá Fora": o estúdio de Marco Horácio
"A Vida Lá Fora": o estúdio de António Raminhos
"A Vida Lá Fora": o estúdio de António Machado
"A Vida Lá Fora": o estúdio de Guilherme Duarte
"A Vida Lá Fora": o estúdio de João Seabra
"A Vida Lá Fora": o estúdio de Nilton
Em plena pandemia, Marco Horácio diverte os portugueses com novo programa da TVI

A SELFIE esteve à conversa com Marco Horácio, um dos criadores e guionistas do mais recente programa de humor da TVI, "A Vida Lá Fora".

Como é que surgiu este programa?

Surgiu dadas as circunstâncias. Nós, artistas, tivemos de nos adaptar a esta circunstância totalmente nova no país para toda a gente. O programa também nasceu, porque as pessoas estão em casa, estavam a começar a ficar ansiosas... Nestas alturas, o humor tem, de facto, um papel fundamental para divertir e abstrair as pessoas dos problemas que estão lá fora, promovendo-se, de alguma maneira, as regras que todos devemos seguir [perante a pandemia de coronavírus], como ficar em casa. 

Ao todo, são seis humoristas a integrar este projeto. Qual foi o mais difícil de convencer?

Na verdade, são sete, porque o Roberto [Pereira] é invisível, mas a ideia do programa também é dele e nós os dois somos os responsáveis pelo guião. Nós construímos o guião à minha volta, escrevemos o texto do António Machado e, quanto ao resto do pessoal, cada um escreve o seu texto. Uma coisa muito gira disto é que as minhas primeiras escolhas aceitaram todas, o que é muito raro. Além disso, quando estávamos a construir o genérico para o programa, pensei logo no Carlão para fazer uma música, falámos várias vezes com ele e ele aceitou e fez uma coisa fantástica. Foi extraordinário o que ele fez. O nosso primeiro convidado musical, que é o António Zambujo, foi difícil de convencer, mas eu insisti muito e ele acabou por aceitar. Cada programa tem um convidado musical. Eu pego na letra de uma das canções desse convidado e adapto para a realidade atual. E, normalmente, a letra tem sempre uma mensagem muito clara [sobre as regras essenciais para evitar a propagação do coronavírus]. No caso do António Zambujo, enviei-lhe a letra e ele leu, gostou e gravou e, para mim, está fantástico. É, possivelmente, o momento do programa. Senti-me mesmo muito feliz. 

Consegue resumir o estilo de cada um dos humoristas?

Eu sou o tradicional "bombeiro de serviço", sempre politicamente correto e vou pondo "água na fervura"... Tenho o papel de pivot consciente e, depois, claro, também tenho as minhas "saídas" com o meu estilo que já é conhecido, que pode ser um pouco absurdo, mas mantendo a minha dignidade (risos). Depois, o Nilton é muito assertivo social e politicamente, também num registo mais descontraído e com uma crítica mais velada. O [António] Raminhos é o Raminhos como nós o conhecemos, com a mulher e as filhas e com todas as suas dúvidas existenciais e os seus receios e a tentar ser o melhor pai e marido possível. O António Machado é o homem das mil vozes que se transforma em algumas personagens, mesmo sem estar caracterizado. Ele vai valer-se da voz, das expressões faciais e dos gestos para as imitações. Temos o Guilherme Duarte, que é mais contemporâneo, tendo um humor mais ácido, está em cima da atualidade, com ironia. O João Seabra é aquele humor mais "patusco", de que toda a gente gosta, com que toda a gente se identifica e de que toda a gente ri, porque é feito com muita naturalidade e é muito parvo, é muito divertido, é muito crítico. Ele é um ventríloquo e tem um boneco - o macaco Sidónio -... e eu sou fã. Foi logo a primeira pessoa de quem me lembrei. É algo muito bem feito e que não há em Portugal. Ele é o único a fazer este trabalho tão bem feito. 

Este acaba por ser um programa inovador, porque, provavelmente, nunca foi feito um programa de humor nestas condições...

Que eu saiba, não. E uma das coisas com que eu acho que as pessoas vão ficar muito agradadas é a qualidade que vai ter. Nós obrigámo-nos a fazer um vídeo de making of em casa, cada um, para as pessoas perceberem que nós nunca estamos uns com os outros. Ou seja, cada um grava em sua casa. Somos sete pessoas separadas e, depois, temos um editor... Até mesmo a produção está separada, não conhecemos ninguém, não nos cruzámos, cada um faz o seu papel e, depois, isto é tudo "cosido"... Toda a gente tem câmaras de alta qualidade em casa e, portanto, a nível de imagem, este programa podia ter sido feito há um ano. Como o país está hoje em dia, com esta quarentena, este é um formato adaptado aos tempos de hoje. E a minha ideia sempre foi: 'Não posso estar em casa de braços cruzados, as pessoas precisam de qualquer coisa e deixa-me cá pensar o que é que se pode fazer de comédia, que seja atual, divertido, didático e familiar'. Por isso, há um humor mais forte, mas sem asneiras, é algo muito controlado. Há um filtro comum a todos. 

Todos vocês têm filhos, animais de estimação em casa... Tem sido fácil escrever, gravar...?

(Risos) Eu tenho o meu filho semana sim, semana não, portanto, para mim, é tranquilo. [Com esta quarentena] O meu dia a dia não mudou muito. Sou muito caseiro, já há muito tempo que sou assim. Mas essa é uma pergunta boa para o Raminhos, que tem três filhas... (risos)

O primeiro programa já está gravado... Teve o seu filho a assistir?

Sim, ele foi o primeiro a ver e também foi giro para perceber as reações dele e o que é que ele achava e ele divertiu-se imenso a ver. 

E, no programa, vocês estão como na promoção, de pijama e chinelos?

(Risos) Vou estar um bocadinho mais arranjadinho... É um "chique em casa". Vou estar igual a mim próprio: não faz sentido estar de fato a apresentar o programa, porque está cada um na sua casa... Mas é uma roupa descontraída. Não vai haver guarda-roupa, nem maquilhagem... Mais autêntico vai ser impossível. As pessoas vão ver os nossos defeitos e todas as nossas qualidades. Não há hipótese.

Acha que as pessoas vão gostar deste programa da mesma forma como acredita que, em alturas como esta, rir é mesmo o melhor remédio?

Eu acho que rir é fundamental, é tudo, em todas as fases da nossa vida. Acho que o humor é uma coisa que, mesmo a nível de ensino, é sempre mais motivador. Quando as pessoas me perguntam sobre os tempos de escola, sobre os professores que tinha, lembro-me sempre de um professor de História. Nunca fui fã da disciplina, mas ele dava as aulas de uma maneira tão intensa e tão divertida que eu acabei por gostar de História nesse ano. No fundo, o humor ativa no nosso cérebro a hormona da boa disposição e, portanto, tem de estar presente em tudo. E neste tempo, em que as pessoas vivem em grande ansiedade e que não sabem o futuro, sentimos que podemos fazer a diferença, com o humor. Acredito que este programa vai ter o condão de chegar, unir e divertir toda a gente, o que é algo de que sempre gostei e sempre defendi. Sempre quis fazer programas que unissem a família, porque aqueles momentos em que estamos todos juntos a ver televisão acabam por marcar a nossa vida e a nossa família. E, hoje em dia, os miúdos precisam disto, porque estão cada vez mais afastados dos pais. Espero que este programa junte toda a gente à frente da televisão, nem que seja durante 40 minutos, e que as pessoas se divirtam e que criem laços cada vez mais fortes. 

Como é que têm sido as reações das pessoas a esta mudança para a TVI?

Tenho tido 99% das pessoas felizes e entusiasmadas por mim e a acarinhar-me. E as pessoas que estão um bocado tristes por me ir embora da SIC dizem sempre que, independentemente do sítio para aonde eu for, vão sempre acompanhar-me. E isto é muito interessante, é sinal de que o investimento emocional que eu faço no meu trabalho é reconhecido pelas pessoas. Eu não mudei para a TVI pelo dinheiro. Eu mudei para um sítio onde eu possa estar mais próximo das pessoas, onde eu possa chegar às pessoas nesta altura em que precisam de mim e eu não conseguia estar em casa, de braços cruzados. Além disso, tive "carta branca" para fazer este novo projeto. Foi um voto de confiança que me soube muito bem.