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Rui Araújo: "Esta guerra esquecida é importante e merecia reportagem"

Rui Araújo

"Guerra Esquecida" é a mais recente reportagem de Rui Araújo. A Selfie conversou com o repórter da TVI sobre este grande trabalho com os militares portugueses na República Centro Africana, onde grupos de milícias colocam, há anos, o país em plena guerra civil.

Como surgiu a ideia desta reportagem?

Era inevitável eu sugerir esta reportagem. Estão reunidas algumas das condições para que o primeiro genocídio deste século (depois de um outro, o do Ruanda, que eu cobri com mais 21 repórteres dos quatro cantos do planeta, em 1994) possa ocorrer na República Centro-Africana. É um receio partilhado, designadamente, pelas Nações Unidas, que mantém no país uma forca de interposição (MINUSCA), cuja principal missão é proteger a população civil. O Conselho de Segurança da ONU foi alertado mais de uma vez para esse perigo há escassos meses. Está, por outro lado, a atuar nesse teatro de operações uma "Força Nacional" (composta por militares portugueses da Forca Aérea e do Exército, maioritariamente Comandos). Sérgio Figueiredo, diretor de Informação da TVI, entendeu que esta guerra esquecida (que já dura há quatro longos anos) é importante e merecia reportagem. Creio que devo sublinhar que África é desde sempre para mim uma paixão. Nos meus tempos de estudante na Harvard University, por exemplo, optei pelos Estudos Africanos. Tive a sorte de ter como professor Leroy Vail, com quem aprendi imensas coisas sobre o tribalismo em Moçambique e fiquei a duvidar de muitas outras. Efetuei, posteriormente, inúmeras reportagens no continente: Angola, Guiné, Malawi, Zaire, Congo, São Tomé, África do Sul, Ruanda, Líbia, etc.

Qual é que foi o maior desafio com que se deparou?

O maior desafio em qualquer reportagem é atingir a verdade dos factos. É uma intenção nobre, mas impossível de realizar. Tentei, juntamente com os meus camaradas Rui Pereira (repórter de imagem) e Miguel Freitas (editor de imagem), mostrar aos cidadãos portugueses algo sobre a tragédia centro-africana (apesar de saber, pertinentemente, que o essencial é invisível ao olhar, como diria Saint-Exupéry). Tentei ser honesto, exato, rigoroso e justo. Tentei.

O que é que podemos encontrar nesta reportagem?

É uma reportagem sobre mais uma guerra suja. E a luta inglória de alguns soldados portugueses, que apesar das limitações materiais ponderosas (ausência de apoio aéreo efetivo num país rico, mas praticamente sem estradas!) tentam fazer e fazem a diferença: salvar civis, alguns.

O que é que mais o surpreendeu nesta investigação?

O que não me surpreendeu nesta reportagem é a coragem silenciosa, mas imensa das vítimas.