Apanha o Pesadelo na Cozinha se Puderes

OPINIÃO
Bruno Santos

Desculpem o banal jogo de palavras. Mas é que vem mesmo a calhar para falar sobre dois formatos surpreendentes, novos e frescos, que trouxeram não só a vitória esmagadora da TVI nas respetivas faixas de exibição, como também uma rutura com o status quo do entretenimento na televisão portuguesa: "Apanha se Puderes" e "Pesadelo na Cozinha". Dois produtos bem diferentes com uma coisa em comum: o sucesso imediato!

Em televisão, a regra costuma ser o fracasso e não o êxito. A taxa de insucesso de novos programas é muito maior do que o contrário. Nós, executivos e decisores, sabemo-lo muito bem. Até bem demais. Infelizmente. Daí, o receio do risco. O que aumenta exponencialmente num mercado de pequenas dimensões como o nosso, pouco maduro e ainda vivendo os efeitos de uma crise sem precedentes.

Mas, como diz o ditado, quem não arrisca não petisca! E a TVI arrisca. Sempre. E arriscou muito nestes dois casos. Desenganem-se os que consideram que basta apostar num qualquer formato e contar com a sorte, como se de uma roleta num casino se tratasse.

Há muito esforço e trabalho por trás das decisões de se avançar com estes dois programas. Mas dependerá o sucesso só do esforço e trabalho? Não só. Até porque o fracasso também não é fruto da preguiça. Infelizmente, essa é outra grande verdade. Muitos programas naufragam apesar do árduo trabalho de excelentes profissionais.

O sucesso de um formato televisivo depende de uma sucessão de fatores e acontecimentos complexos, que vão desde as escolhas mais simples às mais difíceis e arriscadas. Depende de comportamentos sociais, de talento, de trabalho em equipa e, também e porque não, de sorte, claro.

O processo não é linear. Nasce na identificação de uma necessidade, na escolha de um bom formato, na tentativa de encontrar a melhor faixa de programação, na investigação e estudos de mercado, na produtora, nos apresentadores, júris, castings, conteúdos, guiões, alinhamento, cenário, grafismo, música, efeitos, imagem, iluminação etc.

Destaquemos apenas alguns riscos (porque outros existiram) nestes dois casos. Por exemplo, o "Pesadelo na Cozinha" é um género televisivo pouco habitual para os portugueses. Trata-se de um “doc reality” na gíria profissional. Programa-lo num domingo à noite foi, sem dúvida, outro risco, um atrevimento até, diria eu. Neste dia e faixa, os espectadores foram habituados nos últimos anos a programas de grande entretenimento, com público presente, em direto, investimento em iluminação, robótica, cenário, enfim, uma grande gala de televisão. "O Pesadelo na Cozinha" é tudo menos isso. Mas é um sucesso absoluto.

No caso do Apanha se Puderes trata-se de um formato pouco testado nos mercados internacionais (na Europa, Portugal foi o primeiro país), o que significa sempre uma aventura incerta. Outro risco imediato e evidente era a concorrência de um produto muito acarinhado e consolidado no mercado: "O Preço Certo". Ora, desde o dia da estreia o "Apanha se Puderes" vence toda a concorrência por uma margem mais do que confortável, atingindo valores há muito não registados pela TVI nesse horário.

Alguns críticos de televisão e algumas pessoas do meio televisivo não davam muito por nenhum desses formatos. Alguns diziam que "O Pesadelo na Cozinha" era um programa de canal de cabo, com público limitado. No último domingo, a audiência bateu em assombrosos 16,6% de rating – mais de 1,6 milhões de espetadores – e 35,9% de share, valores pouco habituais hoje em dia na televisão portuguesa.

Quando uma novidade alcança o êxito de forma tão avassaladora, os críticos e “programadores de bancada” não valorizam toda a complexidade e os processos envolvidos: temos a felicidade de ter fulano, a possibilidade de contar com beltrano. Ou, simplesmente, temos sorte! Sim, temos, é verdade. Mas é também muito trabalho, experiência, vontade de fazer diferente, de arriscar, de nos mantermos na vanguarda. Na liderança não só das audiências, mas das tendências e das novidades.

Infelizmente, a notícia do fracasso é mais propagada, tende a ser muito mais “interessante” para o meio especializado do que a do sucesso. Mas isso já é assunto para uma próxima crónica.

Um abraço a todos e vida longa à Selfie, também ela fruto de mãos muito experientes, de trabalho persistente, investigação e dedicação.